Agora sim, espero conseguir postar o fragmento de texto que me referi anteriormente e que não havia conseguido postar.
Eis:
Interatividade: refletindo sobre a interação mediada por computador
No contexto das novas tecnologias da informação e comunicação, o termo interatividade é intensamente explorado e parece, hoje, ligado inexoravelmente à informática. Para muitos, a interatividade é entendida como um fenômeno que despontou com a evolução dos computadores e suas interfaces, merecendo estudos aprofundados em diversas áreas do conhecimento. Porém, a partir de que ponto o relacionamento usuário-computador pode ser considerado uma ação interativa de fato?
Nos últimos anos, o termo interatividade passou a ser utilizado indiscriminadamente, tornando-se um adjetivo usado nos mais variados contextos, qualificando qualquer coisa que permita ao seu “usuário” algum tipo de participação, troca, intercâmbio. Hoje, o termo apresenta-se como um argumento de venda, agregando valor a produtos e serviços. Sinônimo de tudo que é inovador, moderno e tecnológico, o termo tornou-se tão elástico que seu sentido foi esvaziado.
A publicidade, por sua vez, estimula a chamada “indústria da interatividade”: cinema interativo, vídeo lousa interativo, boneca interativa, e por ai vai. E o consumidor, seja ele espectador ou usuário, deixa-se seduzir pela promessa de participação ou interferência no produto/serviço adquirido.
Embora o adjetivo “interativo” possa vender produtos e serviços, percebe-se que a qualidade de interação possível é muito variada e nem sempre satisfatória. Podemos comunicar-nos sem, entretanto, interagirmos em grau apreciável.
Partindo do princípio que a interação mediada por computador é uma forma de se comunicar, e que em um dos lados existe um interagente humano, seu estudo, para ser completo, requer a inserção das pesquisas sobre a comunicação interpessoal. Assim sendo, neste trabalho pretende-se abordar o tema “interatividade” partindo de uma reflexão sobre a interação humana e o processo comunicacional. O conceito de interação é fundamental para o entendimento do conceito de processo, na comunicação.
A comunicação representa uma tentativa de conjugar dois organismos, de cobrir a lacuna entre dois indivíduos pela produção e recepção de mensagens que tenham sentido para ambos. Por melhor que seja, é uma tarefa impossível. A comunicação interativa busca esse ideal (BERLO, 1999: 136).
Busca-se, desse modo, superar a idéia de que o interagente humano é apenas um disparador de programas “inteligentes”. Como afirma Sousa (1994),
Hoje não se compreende a vida das pessoas e dos grupos sociais sem a presença das tecnologias de comunicação, nem é possível reduzir a comunicação a seus veículos tecnológicos. Em conseqüência aparecem enfoques e tendências de análises da comunicação, que remetem às dimensões de processos, quer os sociais e políticos, quer os econômicos, nos quais se encontram as tecnologias e a própria comunicação como um cenário a ser resgatado na sua configuração atual e como objeto de estudo da comunicação (SOUSA, 1994, p.9).
Para discutir a interação mediada por computador, este trabalho propõe refletir sobre o relacionamento entre os interagentes (participantes da interação). A proposta é: não estudar nenhuma parte isoladamente. Mesmo reconhecendo a importância e os resultados dos estudos sobre produção, recepção, bem como as recentes pesquisas sobre as tecnologias de informação e comunicação, o que interessa nessa discussão é destacar o relacionamento entre os participantes durante o desenrolar da interação. Dessa forma, o foco não estará nos interagentes individuais, isto é, não se deterá nas especificações técnicas dos sistemas informáticos, nem na complexidade das características do sujeito. As discussões priorizarão o debate sobre o significado e abrangência dos conceitos de interatividade e interação.
2. Interação mediada por computador
A maior parte dos estudos sobre interação mediada por computador enfatiza apenas a capacidade e características da máquina. Sob esse enfoque, os seres humanos e as relações sociais envolvidas tornam-se coadjuvantes no processo. Essa linha de investigação sobre a implementação de sistemas informáticos prioriza pontos como velocidade de acesso e capacidade de armazenamento de informação, relegando ao plano secundário as ações humanas, cada vez mais subordinadas às interfaces oferecidas.
É preciso ampliar a forma de percepção da comunicação para refletir-se sobre a interação mediada por computador. O foco do estudo deve privilegiar a investigação das relações mantidas, observando, prioritariamente, o que se passa entre os interagentes, e não os participantes em separado.
Thompson (1998) entende que interações mediadas “implicam o uso de um meio técnico (papel, fios elétricos, ondas eletromagnéticas, etc.) que possibilita a transmissão de informação e conteúdo simbólico para indivíduos situados remotamente no espaço, no tempo, ou em ambos” (THOMPSON, 1998, p.78). Portanto, se a interação face a face (presencial) implica um contexto de co-presença, o mesmo não ocorre com os envolvidos na interação mediada por computador, especialmente, via Internet.
Se a utilização das TICs permite respostas e interpretações simultâneas, reduzindo o constrangimento espaço/temporal nas relações interpessoais, por outro lado, provoca uma redução no fluxo de “deixas simbólicas” – complementos gestuais ou sonoros à comunicação como sorrisos, mudanças na entonação da voz, gestos, etc. As especificidades das “deixas simbólicas” da interação face a face, presencial – na qual os referenciais de tempo e espaço dos atores envolvidos são simétricos –, não podem ser atingidos pela interação mediada pelo computador.
Observar a interação como simples transmissão de informações é um caminho recorrente no estudo da interação mediada por computador, utilizado principalmente pelas teorias tecnicistas que tentam igualar – de maneira reducionista – a cognição e o comportamento humano ao computador e seu funcionamento.
Em qualquer situação interativa, reduzir a interação a aspectos meramente tecnológicos “é desprezar a complexidade do processo de interação mediada. É fechar os olhos para o que há além do computador” (PRIMO, 2007, p.30).
É preciso entender a interação a partir da relação que se estabelece entre os interagentes – fator muitas vezes desconsiderado nos estudos da comunicação mediada –, reconhecendo que esta vai sendo definida pelos participantes durante o processo. Como a interação é uma “ação entre”, cada agende depende do – e cria uma dependência no – outro. De acordo com Berlo (1999),
O termo interação denomina o processo de adoção recíproca de papéis, o desempenho mútuo de comportamentos empáticos. Se dois indivíduos tiram inferências sobre os próprios papéis e assumem o papel um do outro ao mesmo tempo, e se o seu comportamento de comunicação depende da adoção recíproca de papéis, então eles estão em comunicação por interagirem um com o outro (BERLO, 1999, p.135).
Dessa forma, o objetivo da interação é a “fusão” dos indivíduos envolvidos no processo comunicacional, o que possibilita exercitar a “capacidade de antecipar, de predizer e comportar-se de acordo com as necessidades conjuntas da pessoa e do outro” (BERLO, 1999, p.130), ou seja, exercitar a chamada capacidade empática. Assim, interação deve ser entendida como um processo no qual o indivíduo se engaja. Para evitar o que chamou de “visões distorcidas” do que seja comunicação, Berlo se dedica a esclarecer o que entende por processo, ampliando a definição encontrada nos dicionários: “Se aceitarmos o conceito de processo, veremos os acontecimentos e as relações como dinâmicos, em evolução, sempre em mudança, contínuos. Quando chamamos algo de processo, queremos dizer também que não tem um começo , um fim, uma seqüência fixa de eventos. Não é coisa estática, parada. É móvel. Os ingredientes do processo agem uns sobre os outros; cada um influencia todos os demais” (BERLO, 1999, p.23-24). Importante destacar que a relação desenvolvida entre os interagentes é dinâmica e tem a recursividade como característica transformadora.
Os autores da “pragmática da comunicação humana” – obra de Watzlawick, Beavin e Jackson – dedicaram-se a investigar a relação entre interagentes, mediada pela comunicação, valorizando a relação interdependente do indivíduo com seu meio e com seus pares. Nesse sentido, cada comportamento individual é afetado pelo comportamento dos outros, e a interação é vista como uma série de mensagens complexas trocadas entre as pessoas. Os pesquisadores afirmam que “não é possível não se comunicar”, pois todo comportamento é comunicação:
Em primeiro lugar, temos uma propriedade do comportamento que dificilmente poderia ser mais básica e que, no entanto, é freqüentemente menosprezada: o comportamento não tem oposto. Por outras palavras, não existe um não-comportamento ou, ainda em termos mais simples, um indivíduo não pode não se comportar. Ora, se está aceito que todo o comportamento, numa situação interacional, tem valor de mensagem, isto é, é comunicação, segue-se que, por muito que o indivíduo se esforce, é-lhe impossível não comunicar (WATZLAWICK; BEAVIN; JACKSON, 1967, p.44-45).
Primo (2007) concorda com Watzlawick et all ao abordar o diálogo interpessoal. O autor entende que o comportamento de um interagente afeta o do outro e vice-versa, ocasionando transformações sucessivas. Essas transformações não são predeterminadas, pelo contrário, “a interação demonstra um alto grau de flexibilidade e indeterminação. E devido a essa flexibilidade, os interagentes podem lidar com a novidade, com o inesperado, com o imprevisto, com o conflito” (PRIMO, 2007, p.65).
Assim, pode-se afirmar que os comportamentos do receptor não ocorrem independentemente dos comportamentos do emissor (fonte) e vice-versa, pois, em qualquer situação de comunicação – incluindo a interação mediada por computador –, fonte e receptor são interdependentes.
Existe uma relação de interdependência na interação, afirma Berlo (1999), onde cada agente depende do outro, isto é, os agentes influenciam-se mutuamente, variando em grau, qualidade e de contexto para contexto. O conhecimento do sujeito depende de seu contínuo aprendizado em relação ao seu meio. Sendo assim, “Não há, pois, como separar esse sujeito de sua cultura, de seus pares ou opositores, da política, de suas crenças religiosas (ou ausência delas), da linguagem, das instituições etc” (PRIMO, 2007, p.72). Resumindo, não há como isolar o sujeito da comunicação do contexto onde esta se dá. O autor alerta, porém, para o risco de entender-se interação apenas como ação e reação. Ao se adotar o paradigma ação-reação, adota-se também a visão do processo de uma forma linear, de mão única, onde a fonte é responsável pela emissão da mensagem, cabendo ao receptor apenas o feedback – que teria como única função comprovar a “eficácia” da mensagem transmitida.
Os termos “ação” e “reação” rejeitam o conceito de processo. Implicam que há um começo na comunicação (o ato), um segundo acontecimento (reação), acontecimentos subseqüentes, etc., e um fim. Implicam a interdependência dos acontecimentos dentro da seqüência, mas não implicam o tipo de interdependência dinâmica que se compreende no processo da comunicação (BERLO, 1999, p.117).
Embora defina interação como “ideal da comunicação, a meta da comunicação humana”, Berlo (1999) afirma que, “grande parte do nosso comportamento social envolve a tentativa de encontrar substitutos para a interação, de encontrar bases de comunicação que consumam menos energia” (BERLO, 1999, p.130). Encontra-se aí uma das premissas para o avanço vertiginoso das TICs.
domingo, 16 de maio de 2010
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